Celebrar o Dom da Vida

Com muita frequência ouvimos, hoje, falar na promoção e defesa da vida. Há, de facto, uma nova atenção às diversas situações da vida reconhecendo como indignas, condições que antes eram toleradas ou mesmo aceites.

As ameaças contra a Família

No Sínodo dos Bispos, em 1980, sobre a família, os Bispos apontaram os pontos mais preocupantes: “a proliferação do divórcio e do recurso a uma nova união por parte dos mesmos fiéis...

Os 'boys'

Eles acham que são os donos do país. Portugal é deles. O Estado pertence-lhes. Vale tudo. Estão acima da lei e das deontologias. Não conhecem ética em política, nem educação...

A saúde mental dos portugueses

Alguns dedicam-se obsessivamente aos números e às estatísticas esquecendo que a sociedade é feita de pessoas...

O trabalho, dom e direito

A sociedade portuguesa e internacional, vive uma situação de crise generalizada e de aumento das desigualdades sociais...

Longe vão os tempos

Longe vão os tempos dos preconceitos culturais em que se aceitava que era a mãe que tinha de cuidar dos filhos...

À procura de um sonho

Toda a gente tem sonhos. E segredos. E pecados. Quem não sonha está morto; quem não se resguarda é tonto; quem não peca é santo...

1 de Março de 2012

Quantos anos tinha quando seus pais se divorciaram?

Deixamos aos nossos leitores,  um valioso artigo de Rafael Navarro-Valls, membro do Conselho Pontifício para a Família, sobre a tragédia dos divórcios e seu impacto na vida das maiores vítimas, as crianças.

Acabo de participar num Congresso de interesse especial. Os protagonistas éramos um grupo de especialistas de todo o mundo reunidos em Roma pelo Conselho Pontifício para a Família. A ocasião do encontro foi o 30 º aniversário de um dos documentos mais interessantes do pontificado do beato João Paulo II. Refiro-me à Exortação Apostólica Familiaris Consortio (22.XI.1981). Ao receber a assembléia, Bento XVI destacava a importância do evento com estas palavras: “O eclipse de Deus é devido à propagação de ideologias contrárias à família.”
O Papa não estava a exagerar. Um amargo exemplo mediático será suficiente para definir a seriedade do momento histórico pelo qual a família está a passar. Os jornais americanos gostam de concretizar em poucas palavras o momento da vida que define cada geração. Assim, dirigindo-se àqueles que viveram nos anos quarenta, a questão chave é, geralmente: “Onde você estava quando os japoneses atacaram Pearl Harbor? “For baby boomers, the questions are: ‘Where were you when Kennedy was shot?’” Para os baby boomers (aqueles nascidos entre 1945 e nos primeiros anos da década de 60) as perguntas são:” Onde você estava quando Kennedy foi assassinado?” ou “What were you doing when Nixon resigned?” ou “O que estava você a fazer quando Nixon renunciou?” “For much of my generation - Generation X, born between 1965 and 1980- there is only one question: “When did your parents get divorced?” Para aqueles que viviam no 11 de Setembro de 2001, a questão é normalmente: “Onde você estava quando derrubaram o World Trade Center”? Finalmente, para a geração X, ou seja, para aqueles que nasceram entre 1965 e 1980, só há uma pergunta: “Quantos anos tinha quando os seus pais se divorciaram?”. Our lives have been framed by the answer. Pergunta que perigosamente se aproxima a crianças de tenra idade.

Um evento dramático

Certamente, a realidade é menos negativa, porque há muitos matrimónios que perseveram toda a vida. Mas sim é verdade, dizia o professor Timothy O’ Donnell, no seu discurso ao Congresso que acabei de mencionar, que até mesmo na imprensa mais secular, a experiência do divórcio é colocada entre os eventos dramáticos da história, com uma carga de tragédia profunda.
Pensemos na Europa hoje, um casamento desfaz-se em cada 30 segundos. Isto significa que a ruptura conjugal supera o milhão de divórcios por ano. Nos últimos 25 anos, no nosso continente, destruíram-se  uns 12 milhões de casamentos. As duvidosas posições de honra são para a Alemanha, Reino Unido, França e Espanha, que acumulam os 60% do total. Provavelmente, uma das causas da quantidade tão grande de fraturas nas uniões matrimoniais, é a eliminação ou redução dos tempos de espera nos processos de divórcio. De acordo com um estudo recente, 80% do aumento das taxas de divórcio na Europa Ocidental entre 1970 e 1990 têm a sua causa em tal encurtamento. Na Espanha, a lei de 2005 que reduzia a três meses, após a celebração do casamento, a possibilidade de divórcio, e praticamente eliminava a  separação matrimonial como um possível meio para a reconciliação, produziu um aumento explosivo no aumento das rupturas definitivas dos matrimónios. Destaca o aumento excepcional dos casamentos dissolvidos antes de um ano, que é três vezes superior ao número registado em 2005 como resultado da lei do “divórcio expresso”.
Se a esta informação, juntamos o declínio dramático da  taxa de fecundidade na União Europeia (1,38 filhos/mulher), bem abaixo do nível de reposição generacional (2,1), é lógico que os agentes sociais (advogados, sociólogos, teólogos) encarem com profunda preocupação a situação. Especialmente a da criança.

Da explosão pos-adolescente ao direito puerocêntrico

Isto está a produzir um efeito duplo: o primeiro negativo, o segundo positivo: o que os sociólogos chamam de “explosão de pós-adolescência” e um processo de produção de direito fortemente “puerocêntrico”. Efectivamente, o declínio acentuado no processo de natalidade produziu um processo de superproteção da minguante prole. Superproteção nem sempre benéfica, pois numa família de poucos irmãos a excessiva, ou então a desenfocada, atenção que a criança recebe dos pais confirma-a numa certa ilusão de omnipotência. O seu ambiente concentra-se no imediato, e os seus desejos tendem a ser imediatamente satisfeitos. Mas, ao chegar à adolescência, a realidade torna-se hostil ao não ser mais possível a imediata satisfação de desejos, gerados por novos estímulos. Essa confusão, muitas vezes, leva a uma forte atração aos estímulos externos, tais como a toxicodependência e a delinquência.
Quanto ao direito “puerocên-trico”, implica um processo sem precedentes de concentração de direitos na criança, que se concretiza num direito certamente absorvente. Basta ver este exemplo recente. A Comissão Europeia propôs recentemente (15/02/2011) toda uma série de medidas para proteger os direitos da criança. Trata-se na sua maioria de mudanças jurídicas de apoio às administrações dos países membros. Alguns exemplos sugeridos são: leis que protejam melhor os direitos das crianças como grupo particularmente vulnerável durante os processos judiciais e ante os tribunais; apoio à formação de juízes e outros profissionais da área jurídica para que estejam em condições de ajudar as crianças nos tribunais; medidas contra o cyberbullying, o grooming (manipulação de crianças por adultos através da Internet), a exposição a conteúdos nocivos e outros riscos, através do programa da UE para uma Internet mais segura; apoio à luta contra a violência exercida sobre crianças e contra o turismo sexual infantil.

O que pode ser feito?

O debate final do Congresso a que me referi no início dessas linhas não se limitou a descobrir a imagem de uma família doente. Abundou em medidas positivas. Algumas delas coincidem com as 101 medidas que, para a Espanha, acaba de sugerir o Instituto de Política Familiar (Madrid, 2011). Entre elas: elaborar uma Lei de Prevenção e Mediação Familiar para ajudar os matrimónios com crises; ajudas directas universais à gravidez e por nascimento; aumentar as licenças remuneradas de maternidade e de paternidade; criar  "cheques creches" e “cheques escolares”; aumentar a % do PIB destinado à família (cerca de 2,1% na UE, 1,5% apenas na Espanha), etc.
No entanto, na minha opinião, se é importante criar um quadro legislativo no qual as famílias possam respirar e cumprir as suas finalidades, será a influência dos mídia, das escolas, das igrejas e, sobretudo, das próprias famílias que irão decidir o jogo. Não esperemos que o modelo de família seja, como antes, “um produto” dos costumes, mas deve ser um “instrumento de modificação” desses costumes. Trata-se de oferecer ao Ocidente com muita paciência a ética e a antropologia que pulsa sob a bíblia “una caro” (uma só carne). Trata-se de estar conscientes de que a crises do matrimónio e da família provavelmente, não se devem tanto a razões históricas ou sociológicas quanto a motivos ideológicos. Será no mundo das idéias onde teremos que definir as alterações. Isso vai levar tempo. Mas vale a pena.

Por Rafael Navarro-Valls

26 de Fevereiro de 2012

O Voluntário

Nunca entre nós o voluntariado enraizou a fundo, manifestou-se aqui e ali, por esta e por aquela pessoa, foi crescendo, chegou mesmo a estiolar e, agora, começa a ter alguma expressão humana e material, mas fruto das circunstâncias e não porque sejamos um povo vocacionado para o voluntariado. 
Não porque não se ericem razões; não porque não tenhamos um campo de apelo ao volun-tariado, mas porque vemos cinzento e pálido umas vezes, outras vezes porque estamos mesmos cegos. 
O voluntariado é um testemunho de um estado de espírito, de alma, uma predisposição íntima, um sair de si mesmo, um ir ao encontro do outro, na visuali-zação mais iluminada do “tu”, do quanto ele vale para mim. 
O voluntariado é um testemunho límpido e cristalino desse valor e tem a dimensão do seu peso, do quanto o meu semelhante me diz. 
O voluntariado é um abandono do meu egoísmo profundo e um olhar meigo, de serviço, de acolhimento, voltando, com um sentido plurifacetado na direcção do que me rodeia e que precisa de interlocutor válido. 
Numa sociedade onde, por pura utopia, todos usufruam das mesmas oportunidades, sejam tratados com justiça, o respeito pela liberdade individual seja assegurado, a dignidade humana seja uma valor de proa, não precisa de voluntários, porque estes são uma exigência e um postulado de sociedades ou genericamente miseráveis ou com corpúsculos maioritários de doença, que não apenas física, mas psíquica e moral, ou focos incidentais e acidentais de miséria. 
E o nosso país começou a cair num poço de miséria, mas ainda não mergulhou totalmente nas águas turvas, paira nelas, à tona, de cabeça à sua superfície. 
Era forçoso cairmos nele. 
Um país que se autodestruiu, que se entregou ao abandono daquilo que mais sagrado os seus antepassados lhe legaram, desde logo os nacos de terra comidos pelas ervas daninhas, na convicção de que tudo era rico, valendo mais, e chegando, o ripanço, a pensão, o subsídio, gerou auto-suficientes. O outro não conta. 
Um país que, nos Centros de Saúde, gratuitamente, bastava o pedido, distribuia a esmo a pílula, necessariamente que erigiu o hedonismo como puro baluarte. A irresponsabilidade abateu-se sobre ele. A maternidade uma função orgânica calculada. 
Tornámo-nos velhos, quanti-tativamente uma massa de velhos. 
Um país que criou e deixou criar mais de 200 cursos de engenharia, sabia muito bem que a oportunidade de colocação deles saída era quase nula. Mas absorveu e continua a absorver propinas. Logo engana. 
Um país onde mesmo quem pode se esquiva ao pagamento de um muito estipêndio de consulta, um exame, um meio de diagnóstico, um medicamento que se deita fora quando se entende não precisar é um país rico. Falsamente rico, demonstrou-se. 
Um país onde pouco se trabalha, tanto no sector privado como público, salvo raras e honrosas excepções, era e é um país de gente de braços caídos confiante no céu, que não paga salários. 
O reverso da medalha é outro, agora. 
E nunca tanto como agora se faz apelo ao voluntariado, a sermos voluntários na ajuda aos que sofrem, seja esse sofrimento localizado, nacional ou além fronteiras, seja esse auxílio material, com gestos ou palavras. 
Os que mais me impressi-onam, dentre os carentes de vida melhor, e que mais me tocam, são os pobres da África negra, atingidos pela fome e os que são perseguidos pela sua convicção religiosa, em países como a Índia, o Paquistão, o Iraque, a Indonésia, etc, onde ser-se católico, vale a discriminação social e profissional e a vida. 
Na Tunísia aqui bem perto o trazer uma cruz com o Crucificado ao peito já vi ser motivo de reparo. E não vai longe esse tempo. No velho Egipto, em Luksor, a resposta foi que não havia Igreja, mas havia…várias e até uma catedral…
Alguém disse que o séc. XXI seria o século do voluntariado ou o seu suicídio, na falta dele. 
Os homens tem que dar a mão, em todas circunstâncias de carência, que não é só a alimentar, ao seu semelhante, estendendo-se à ajuda, ao conforto espiritual, na doença, na angústia, no desespero, na depressão, na saúde, na educação, na indiferença, no combate feroz à injustiça e ao favoreci-mento, ao compadrio e nepotismo, que, por tão frequentes, nos desacreditaram no mundo, se alguma vez tivemos crédito, porque o rei foi sempre nu ou semi-nu embora se convençam de que vão ornados com jóias, pedrarias e finos brocados de seda, puxados por majestosos corcéis, quando são carroças desengonçadas puxadas por cavalos pindéricos e famélicos, de confranger. 
O voluntariado num Estado semimorto como o nosso tem um campo de eleição e pode, mesmo, transformar o nosso país, suplantar o egoísmo e a indiferença que por aí vegeta. 
É chegado o momento de descascar a cebola, que cada um de nós é; casca a casca podre, até chegarmos à comestível. 
Tal como uma criança, de olhos extasiados e lábios frementes, feliz e alegre, quando se lhe estende uma guloseima, eu vou dizer: eu gosto muito de fazer voluntariado, já lá vão quase uma década e meia de anos, sem esmorecer, no CAF (Centro de Aconselhamento Familiar ), em Coimbra...

Por Armindo Monteiro

23 de Fevereiro de 2012

A Paz é uma questão de Educação

2011 foi ano de forte contestação e protesto em várias zonas do globo. Assumiram especial protagonismo os jovens que em alguns países, além da camada populacional demograficamente mais relevante, são também o grupo mais instruído, inconformado e aberto à mudança. Impeliu-os a frustração de regimes políticos repressivos, de situações sociais e económicas que os penalizam especialmente e a aspiração à liberdade e a uma vida digna e com futuro em estruturas mais justas em que possam participar mais activamente.
Variam as explicações das causas e as previsões das conse-quências. Bento XVI prefere salientar as causas culturais e antropológicas da presente crise. A sua Mensagem para o XLV Dia Mundial da Paz com o tema “Educar os jovens para a justiça e a paz” visa consciencializar, formar e mobilizar para a tarefa da educação dos jovens para enfrentarem e construírem um futuro de justiça e de paz, mais de acordo com a sua dignidade e aspirações.
Para o Papa falar em educação implica “comunicar aos jovens o apreço pelo valor positivo da vida”, pela liberdade, pela responsabilidade, a verdade e o bem. O processo educativo é dialogal. Tem por objectivo o confronto com a realidade e o desenvolvimento integral da pessoa do educando. Põe em interacção duas liberdades: a do educador, responsável por propor modelos de aproximação da realidade, testemunhar os valores que dão sentido à vida e respeitar a dignidade e liberdade do discípulo; a do educando, disponível para procurar a verdade no seu confronto com a realidade e com os outros e acolher quem o guia e orienta nessa tarefa. 
A família é a primeira instituição educativa “onde se educa para a justiça e a paz”.  O Papa explica:   “É na família que os filhos aprendem os valores humanos e cristãos que permitem uma convivência construtiva e pacífica. É na família que aprendem a solidariedade entre as gerações, o respeito pelas regras, o perdão e o acolhimento do outro". Qualquer outra instituição educativa, qualquer instância social ou política de que estas dependam deve respeitar o primado educativo da família e criar as condições para que “as famílias possam escolher livremente as estruturas educativas consideradas mais idóneas para o bem dos seus filhos.”
A liberdade é constitutiva da pessoa humana. A liberdade não é a afirmação exclusiva e absoluta do “eu”, não é indiferença perante o outro. A relação é outra inerente dimensão da pessoa. O homem é um ser relacional. Viver é “viver com”, é relacionar-se com os outros, é relacionar-se com o “outro” transcendente, com Deus. A liberdade acarreta a responsabilidade. Pela liberdade, pelas suas escolhas ou recusas, cada um constrói a sua personalidade, vai consolidando o seu “eu”. 
Cada um é responsável pelo que faz de si. É também responsável pelos outros, por aquilo que faz aos outros, que faz com os outros, na edificação duma sociedade justa e pacífica. Haverá situações em que é necessária a manifestação pública, o protesto, a indignação perante a injustiça. Mas é preciso ir mais além. “Os jovens devem ter a coragem de começar, eles mesmos, a viver aquilo que pedem a quantos os rodeiam.”
A liberdade reclama a verdade. À “liberdade de” escolher, ao livre arbítrio, sobrepõe-se a “liberdade para” cada um realizar o seu próprio projecto de homem. E isso pressupõe a descoberta da verdade sobre si próprio, a resposta à questão: Que homem eu sou? Que é o homem? Descobrir a verdade do homem significa abrir-se à transcendência de Deus, reconhecer o valor da vida, a dignidade inviolável da pessoa humana e reconhecer uma lei inerente à natureza humana. Tal lei supera as convenções humanas, é a mesma para todos e é a fonte originária da distinção entre bem e mal, dos direitos e deveres de cada um. “O exercício da liberdade – escreve o Papa na Mensagem - está intimamente ligado com a lei moral natural, que tem carácter universal, exprime a dignidade de cada pessoa, coloca a base dos seus direitos e deveres fundamentais e, consequentemente, da convivência justa e pacífica entre as pessoas.” 
Para lá das diferenças mais ou menos acidentais há algo que é comum a todos os homens, há um igual respeito devido a todos os homens, há aspirações universais a que devem ser sacrificados os particularismos e interesses individuais e circunstanciais. Há um bem próprio do homem, de todo o homem com o qual se confronta cada um nas suas decisões morais. Há um bem comum que serve de norma para as leis que regulam as relações sociais e as decisões políticas na comunidade dos homens qualquer que seja a sua dimensão.
Essa verdade transcendente do homem, esta lei natural fundada na “sua identidade profunda” e não na arbitrariedade das convenções está também na base dum conceito universal de justiça necessário para regular conflitos e convenções, construir e manter a paz. Este conceito de justiça abre-se à caridade e a solidariedade. 
A paz é uma tarefa continuada, uma construção, uma reconstrução permanente que exige o compromisso de todos na medida das suas competências e responsabilidades. 
O Papa lança um apelo especial aos jovens “a procurarem com paciência e tenacidade a justiça e a paz e a cultivarem o gosto pelo que é justo e verdadeiro, mesmo quando isso lhes possa exigir sacrifícios e obrigue a caminhar contracorrente”.
“Para sermos verdadeiramente artífices de paz, devemos educar-nos para a compaixão, a solidariedade, a colaboração, a fraternidade, ser activos dentro da comunidade e solícitos em despertar as consciências para as questões nacionais e internacionais e para a importância de procurar adequadas modalidades de redistribuição da riqueza, de promoção do crescimento, de cooperação para o desenvolvimento e de resolução dos conflitos.” « Felizes os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus » – diz Jesus no sermão da montanha (Mt 5, 9).

Por Octávio Morgadinho

19 de Fevereiro de 2012

Tranquilidade na ordem

A estrutura da personalidade compreende, entre outros elementos psicológicos, um conjunto de virtudes que tornam  o ser humano mais perfeito, íntegro, humanitário. Uma virtude representa sempre mais rectidão, probidade, excelência moral. As pessoas podem ser avaliadas pela riqueza das suas virtudes.
A virtude da ordem, por exemplo, entronca na disciplina, na organização, na aceitação de preceitos e normas. O próprio Universo é obediente a uma ordem estabelecida, implacável, caso contrário não poderia existir. Para assimilar, manter e fazer crescer esta virtude, o indivíduo precisa de corrigir, moldar e aperfeiçoar o seu carácter. Para isso, não poderá prescindir do concurso de outras virtudes, como paciência, tolerância e perseverança. Terá também que afastar hábitos nocivos, como rebeldia e inconformidade, porque na ausência da disciplina, a vida torna-se impossível.
Possuir esta virtude é comportar-se de acordo com algumas normas lógicas, necessárias para o êxito de algum objectivo desejado e previsto, na organização das coisas, na distribuição do tempo e na realização das actividades, com iniciativa própria e sem  que seja necessário recordá-lo.
A ordem não é apenas o que cada um de nós pensa num primeiro momento, como a ordem referente à nossa mesa de trabalho com mais ou menos papéis; ao armário ou aos livros amontoados... Esse aspecto utilitário da ordem  não é e nem deve ser um fim em si mesmo, mas a consequência de outra ordem fundamental, interior, que se traduz e se projecta no que se faz.
Sem ir mais longe, podemos afirmar que, uma ordem que se limitasse à mera organização de coisas e materiais, bem como de ocupações pessoais, vendo nela uma lei suprema, a ponto de converter-se em obsessão ou mania, como um ídolo ao qual se sacrificassem valores mais importantes, seria na realidade uma grave desordem. Por isso, é importante conhecer e viver os critérios da ordem que hão-de regular a vida e as coisas da vida. Não basta obedecer às leis do menor esforço ou do gosto pessoal. Ou ordenar as actividades a um nível segundo critérios de generosidade ou de egoísmo; ou conforme o que mais agrada aos sentidos, ou que se coaduna com critérios morais...
A ordem, digna deste nome, tem de partir e apontar para um objectivo muito alto: o de conseguir que todos os nossos actos se ordenem para uma vida virtuosa, que  se proponha traduzir nesses actos a ordem geral querida por Deus para nós e para as coisas que dependem de nós, do melhor modo que consigamos apreendê-la. Assim, a ordem não será apenas uma virtude, mas a resultante de um conjunto de virtudes que reflectirão a vontade expressa de nos ajustarmos à ordem universal estabelecida pelo Criador para todo o Universo, e à ordem que Ele estabeleceu  para  o nosso caso.
Nada existe no Universo sem finalidade, quer se trate de seres inanimados ou de seres vivos, e muito menos o homem dotado de uma alma imortal. E não só o homem em geral, mas cada um de nós, em particular,  titular de dons e talentos específicos que deve ordenadamente desenvolver e fazer frutificar...
As normas gerais, como princípios de ordem para o género humano e, por conseguinte  para cada um de nós, encontram-se resumidos nos Dez Mandamentos. Cumpri-los é o primeiro elemento ordenador da nossa vida. Não os cumprir é a desordem, ou antes a fonte de todas as desordens... A infracção ou transgressão de leis superiores a que chamamos pecado...
O Catecismo da Igreja  Católica  diz, em resumo, que “Os Dez Mandamentos  fazem parte da revelação de Deus. Ao mesmo tempo que nos ensinam a verdadeira humanidade do homem. Põem em relevo os deveres essenciais e, por conseguinte, indirectamente, os direitos fundamentais inerentes à natureza da pessoa humana. O Decálogo encerra uma expressão privilegiada  da  «lei natural» “.

Ordem pessoal  e previsão

Quando não há ordem na mente, acabamos sempre por escolher o que  mais nos apetece, ou o que mais chama a nossa atenção e, assim, é natural  que em bastantes ocasiões não coincidam com  o que devemos fazer nesse momento. Isto gera habitualmente perdas de tempo  e, muitas vezes, de paz e de serenidade...
A ordem é um factor multipli-cador do tempo. Por isso vale a pena parar e reflectir:
Procurar, detectar os aspectos importantes, concretizá-los e estabelecer uma ordem de prioridades adequada.
Ver se o que fazemos é o que realmente temos de fazer nós, ou se não seria mais útil que, nessas circunstâncias, outros o fizessem.
Se sabemos cortar a tempo tarefas que, sendo menos importantes, nos podem levar a deixar outras mais urgentes de forma sistemática.
Pensar se poderemos mudar algumas ocupações menos relevantes para horas menos apertadas, por exemplo, para momentos que não sejam cruciais para atender a família, para  podermos estudar ou trabalhar com mais tranquilidade e eficácia.

Por Helena H. Marques

15 de Fevereiro de 2012

O Futuro dos Nossos Jovens

Milhões de jovens inteligentes e sem emprego desencadearam revoltas no mundo árabe. Mas o problema não se confina ao Médio Oriente e a Norte de África.
A Organização Internacional do Trabalho diz que, em 2009, existiam em todo o mundo 81 milhões de jovens, entre os 15 e os 24 anos, sem emprego.
Em França, o desemprego jovem atingiu 25% no fim de 2010. Em Inglaterra já tocou nos 20,3%, ou seja quase um milhão de pessoas e em Portugal era de 15,4% no final do ano passado.
Mas é em Espanha, com mais de 40% dos cerca de 4,3 milhões de “parados” que o panorama é mais negro para os jovens.
No nosso país, eram 95.500 os jovens até aos 25 anos sem emprego em Dezembro de 2010. Não se sabe quantos desses jovens possuíam licenciatura ou mestrado, sabe-se apenas que existiam 76.600 licenciados sem trabalho no final do ano passado.
Mas também se sabe quais são os cursos com menos probabilidade de emprego e muitos são os que continuam a insistir neles, provavelmente apenas para terem um curso, na esperança de que, no final, as coisas acabarão por se resolver.
Psicologia, Sociologia, Jornalismo, Direito, são apenas alguns dos cursos que têm vindo a engrossar o exército dos desempregados com licenciatura. Mas também as áreas técnicas não são já garantia de empregabilidade.
Enfermagem, Arquitectura, Economia, Gestão, Engenharia Civil, Química, etc., também têm, na maior parte das vezes com o apoio dos pais, coleccionado formação complementares, como mestrados e pós-graduações, sem que o panorama se alterne.
Ao mesmo tempo, existem empresários que procuram empregados indiferenciados sem sucesso, porque não estão nos grandes centros, e outros que, nas cidades ou nas zonas turísticas, não encontram padeiros, pasteleiros, chefes de talho, cozinheiros, etc.
Cavaco Silva dedicou a vitória nas eleições presidenciais aos jovens portugueses e o primeiro-ministro tem dito que está preocupado com os mais novos.
Mas será isso suficiente? O desemprego jovem não pode ser um combate isolado, tem de ser integrado num movimento mais envolvente de criação de emprego e, para isso, será necessário que as autoridades colaborem entre si para facilitar o investimento empresarial e a criação de empresas, sem olhar para os gestores e empresários como se de criminosos se tratassem.
É preciso apoiar aqueles que começam a facilitar a vida àqueles que já estão no terreno. É um bom pretexto para que os que criam emprego sejam elevados à categoria de heróis.
E quem cria emprego são as empresas, não são os governos. São os privados. Disso não haja dúvidas. Mas os jovens podem ter uma palavra a dizer, pela criatividade, pelo arrojo e pela disponibilidade.
Há inúmeros exemplos de negócios que nasceram de simples ideias. A título de exemplo, um jornal diário noticiou a história de um jovem de 23 anos que colocou à venda uma aplicação para o Farmville – um jogo através da Internet – e já ganhou muito dinheiro com isso.
Mas outros têm procurado colocar em prática as suas ideias e criado emprego e riqueza. É esse o caminho. O futuro será dos que tiverem ideias e acreditarem nelas. O futuro será daqueles que tiverem a coragem de arriscar ou de acompanhar e ajudar os empregadores e não dos que ficarem à espera que lhes arranjem emprego.
Todos temos familiares, amigos ou familiares de amigos que são jovens à procura de trabalho. O drama toca a quase todos, mas, como em tudo na vida, há duas atitudes possíveis: exigir que se criem mais empregos, sem cuidar de saber onde nem como, ou pôr a cabeça a funcionar, descobrir oportunidades e depois colocá-las em prática. Os jovens de hoje são uma geração “à rasca” como já foram outras no passado e como é, por certo, a dos 35 aos 44 anos, com 22,5% do desemprego registado em Portugal. A maior parte dos 139.400 sem emprego neste escalão, tem família, responsabilidades e muitas ‘dores de cabeça’. Estão, por isso, também “à rasca”, como o está, no fundo, o País.

Por Orlando Fernandes


13 de Fevereiro de 2012

Ano 2012. O Compromisso com o Futuro

Estamos em 2012, o ano para o qual temos sido alertados e preparados quase sempre desde um ponto de vista negativo. Até as mensagens de boas festas que, por estes dias, todos costumamos receber e enviar, têm esta marca. Nem o facto de estarmos no  início de um novo ano, com o seu convite simbólico a fazermos um exercício de virar de página para começarmos uma nova etapa, parece ter força suficiente para superar essa visão negativa e difícil com que já começamos a escrever as primeiras linhas do diário de bordo de 2012.
Parece que não há outro remédio se não prepararmo-nos para as dificuldades que já estamos a viver e que, todos dizem, se vão ainda agravar. 
Sinceramente, não sou capaz de aceitar esta posição, não sou capaz de aceitar que não haja outro remédio, de tal modo que não exista outra saída a não ser entrar, obedientemente, nesta onda negativa e cinzenta.
Claro que não podemos fugir à realidade. Tenho consciência das dificuldades e mesmo dos sacrifícios que nos estão a ser pedidos. Sinto-os diariamente e sei que há muita gente a senti-los de uma maneira muito mais dramática do que eu. Sei mesmo até, e isso preocupa-me e simultaneamente compromete-me, que muitos verão afectado o seu nível de vida de uma maneira que não podemos deixar de considerar injusta e errada. 
Mas é esta mesma atitude de não querer fugir à realidade que me leva a recusar que não seja possível ensaiar outro caminho. Com isto não nego as dificuldades nem os sacrifícios, mas julgo que não devem ser eles nem o único, nem o principal, motivo a guiar os nossos passos. O nosso motor tem que ser outro e o nosso horizonte tem de ser mais amplo, levando-nos a olhar para além do que é imediato, em direcção a um futuro que queremos diferente deste presente, um futuro onde sejamos capazes de atitudes mais fraternas e mais solidárias, mais de acordo com a nossa dignidade e vocação humanas.
A experiência do casamento que tem servido de pano de fundo à reflexão que tenho vindo a partilhar convosco inspira-me também neste momento. Todos sabemos como no casamento surgem dificuldades e como é necessário fazer opções que acarretam renúncias e sacrifícios. Todos sabemos, igualmente, que esses momentos não são fáceis, nem um faz de conta. E, no entanto, sabemos que aquilo que nos leva a essas opções é o projecto de vida em comum, o projecto de amor e fidelidade que abraçámos e que dá sentido ao viver. É a partir desse projecto, que está no início, mas que simultaneamente é horizonte para o qual caminhamos, que tomamos as nossas decisões. Assim, o que marca o nosso viver não se esgota no presente, com as suas dificuldades e facilidades, com as suas alegrias e tristezas, mas abre-se a um tempo mais vasto e pleno. 
Na vida de casal, cada um está comprometido com a felicidade e a realização do outro, do outro que ama e dos outros que são o fruto desse mesma dádiva de amor. E esse compromisso é simultaneamente uma das realidades a partir das quais se tomam as decisões. Eu não decido o que é melhor para mim, mas sim o que é melhor para nós. Eu não decido simplesmente para agora, se bem que cada agora não possa ser ignorado, mas para um tempo mais amplo, para o tal horizonte que está no início e no fim.
Sinceramente é esta a atitude a tomar. Na vida do casal e da família o mais importante é o compromisso com a felicidade e a realização dos outros, que inclui a de cada um como é óbvio. O mais importante é o compromisso com esse projecto de amor. Essa é a única inevitabi-lidade, a realidade a partir da qual eu penso e vivo as outras.
Este sentido último, este compromisso com a felicidade dos outros, mais próximos ou mais afastados, tem de marcar a nossa atitude perante os desafios que somos chamados a enfrentar neste ano de 2012.
É possível a construção de um futuro diferente, mais humano, mais justo, mais fraterno, atrevo-me mesmo a dizer de um futuro mais de acordo com o sonho de Deus para a humanidade. Este é o horizonte a partir do qual devem ser enquadradas as dificuldades e os sacrifícios e não o contrário. 
Quem acredita no Deus de Jesus Cristo não pode ficar indiferente a tudo o que é humano. A esse propósito lembro aqui, neste  2012, em que celebramos os 50 anos do início do concílio Vaticano II, aquele texto paradigmático e profético que é a Gaudium et Spes e que começa literalmente com estas palavras: “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração. Porque a sua comunidade é formada por homens, que, reunidos em Cristo, são guiados pelo Espírito Santo na sua peregrinação em demanda do reino do Pai, e receberam a mensagem da salvação para a comunicar a todos. […].” 
Que ao longo deste ano de 2012 possa erguer-se bem alto este testemunho, à maneira de grito que por todo o lado anuncia a mensagem da boa nova. Mensagem que não é só palavra, mas que é concretizada na vida das nossas famílias e pelo seu compromisso com o futuro dos outros, dando especial atenção aos mais pobres e aos que mais sofrem.
Não tenhamos medo de ser construtores de outro futuro.

Juan Ambrósio
juanamb@ft.ucp.pt

11 de Fevereiro de 2012

Editorial

Eram os anos 60! A realidade familiar começava a emitir sinais preocupantes, que faziam intuir a necessidade de iniciativas que fossem de apoio e estímulo à família. Urgia relembrar e apontar a sua beleza, o seu fundamento e a sua missão. O Jornal da Família surge então como uma resposta, com o propósito de ajudar a purificar a nascente... 
"A família é fonte donde brota a humanidade... é preciso defender a nascente se quisermos ter água límpida e saudável", afirmava então o Pe. Brás. Esta intuição reveste hoje uma actualidade extraordinária. Ao progressivo estrangulamento da família, corresponde hoje uma desagregação e um empobrecimento dos valores mais básicos da vida e da convivência social: o respeito pela vida, pela pessoa e suas crenças, a paz das nações, a harmonia, a beleza, o bem comum, as relações construtivas e dignificantes, os compromissos, etc. Com razão Bento XVI, denuncia como factores responsáveis pelo mal-estar social, “o eclipse de Deus, a difusão de ideologias contrárias à família e a degradação da ética sexual”. 
Fragilizados os valores básicos de uma convivência nobre e digna, a lógica do prazer instala-se e teima cilindrar a existência e seus sentidos, ditando normas, estilos de vida, estilos de consumo e de relações descartáveis, publicidades, vendas, compras, instrumentalizando a vida e as relações; fazendo acreditar, a todo o custo, que este é caminho obrigatório para a felicidade. Mas o cenário social, com seus dramáticos coloridos, desacredita-a, nas suas promessas cor-de-rosa, fazendo intuir que não é esse o verdadeiro caminho.
O Jornal da Família, remando contra corrente está de parabéns! Ao longo destes 52 anos tem procurado veicular estas verdades. 
De olhos postos no futuro e em largos milhares de famílias que vivendo em fidelidade a sua vocação de cônjuges, pais e esposos, são “um verdadeiro oásis” na sociedade e na Igreja, o Jornal da Família, continuará a “gritar” com Bento XVI que “a família é riqueza para o casal, bem insubstituível para os filhos, fundamento indispensável da sociedade, comunidade vital para a Igreja”. 

Vieira Maria

5 de Janeiro de 2012

Casados e Felizes


10. A felicidade como fundamento e horizonte 

Aproximamo-nos rapidamente de uma época em que somos convidados a reflectir um pouco sobre o sentido da vida, mas simultaneamente somos muitas vezes tentados a entrar na ‘roda viva’ das compras e das lembranças que costumamos partilhar uns com os outros. 

Estes dois movimentos, aparentemente contraditórios (e digo aparentemente pois a reflexão sobre o que verdadeiramente importa pode ajudar a guiar-nos na tal ‘roda viva’) pode, este fim de ano, exercer uma certa pressão na mesma direcção. Na verdade, o discurso que nos rodeia, a realidade que nos vai sendo descrita, os caminhos que nos propõem estão marcados com cores bastante negras. Nem a ‘roda viva’ das compras parece ser capaz de nos distrair dessa realidade, pois também a esse nível se notam muito as cores negras. De tudo isto começa a brotar a pergunta pelo futuro. O que vai ser o próximo ano, que mais surpresas desagradáveis nos estão guardadas? 

A pergunta não me parece má, pelo contrário julgo até ser muito salutar interrogarmo-nos sobre o futuro, pois deste modo podemos prepará-lo e preparar-mo-nos para ele. O problema não é verdadeiramente a pergunta, mas o estado de ânimo a partir do qual fazemos a pergunta. Pois bem, é precisamente a esse nível que eu acho que devemos estar muito atentos. 

Sinceramente, parece-me poder afirmar que para muitos dos nossos contemporâneos essa pergunta está a ser feita a partir do receio, se não mesmo a partir do medo. Percebo perfeitamente que assim seja. Muitos de nós já estamos no limite; para muitos já se começa a entrar naquela fase em que não se trata simplesmente de cortar naquilo que é superficial e secundário, mas naquilo que faz falta para um dia a dia com algum desafogo e dignidade. 

Mas fazer a pergunta a partir do medo é correr um enorme risco. O medo paralisa-nos e impede-nos de ser criativos e ousados. A partir do medo tendemos a dar passos atrás e não simplesmente no sentido de emendar o que estava mal, isso até seria bom e vamos ter de o fazer, mas no sentido de tentar replicar aquelas situações passadas nas quais nos parecia que estávamos mais confortáveis do que agora. O problema é que o mundo mudou e essas situações não podem mesmo ser repetidas, pelo que voltar a elas, sem mais, seria verdadeiramente dar um passo atrás, mas no mau sentido. Não creio que essa seja a solução. 

Também não me parece que a solução passe por ignorar a realidade que nos rodeia, criando uma ilusão que, também ela, não nos permitirá lidar com o futuro da maneira mais conveniente. 

O estado de ânimo a partir do qual temos de fazer a pergunta pelo nosso futuro e a partir da qual temos de começar a dar a resposta tem de ser outro que não o receio, nem o medo. Esse estado de ânimo tem de ser a felicidade. 

Claro que não falo de uma felicidade qualquer. Não me refiro àquela busca egoísta da felicidade que até é capaz de se comprometer com a felicidade dos outros, mas só num segundo momento, só depois de garantir a felicidade própria. Não me refiro também àquela felicidade que se esgota em cada momento presente, porque é cons-truída só para o presente. Mas também não me refiro aquela que só aponta para o futuro importando-se muito pouco com o presente. 

A felicidade de que falo é aquela que, por exemplo, podemos viver no casamento. Aí fazemos a experiência de que ela brota do compromisso com o outro. Não é um momento segundo com o qual me preocupo só depois de ter garantido o mínimo para mim. Pelo contrário, aquele que ama sabe verdadeiramente que a sua felicidade exige a do outro, que até, de certo modo, parece estar em primeiro lugar. Quem ama é feliz porque faz o amado feliz. 

A felicidade que brota do casamento também não se reduz ao momento presente. Pelo contrário ela é mesmo impulso que me permite caminhar e horizonte para o qual caminho. Por isso me permite olhar para o futuro com criatividade e ousadia, sem ter medo dele, mesmo estando consciente das grandes dificuldades que ele possa acarretar. 

A felicidade vivida no casamento, nem sequer se reduz aos dois: marido e mulher. O seu horizonte é mesmo mais vasto sendo capaz de incluir e comprometer-se com outros: os filhos em primeiro lugar, mas também os restantes familiares e amigos. 

Sinceramente estou convencido de que levar a sério a vida em família, tendo por base a vida do casal, pode ser uma das grandes saídas para a situação em que nos encontramos. A esse nível vemos, como a ‘crise’, que parece ser omnipresente, não pode esgotar as nossas energias nem preocupações. O testemunho de casais e famílias, preocupados com a realidade difícil que estamos a viver, mas verdadeiramente comprometidos com a felicidade é urgente e necessário, não para iludir a realidade, nem para fintar o futuro, mas para o poder construir com outros contornos e outras cores. Não fazer tudo o que esteja ao nosso alcance para promover e facilitar esta experiência de vida será certamente uma decisão muito pouco inteligente. 

Vamos agora celebrar o nascimento do menino. Também este mistério maior da nossa fé pressupõe a realidade familiar. Sinceramente desejo que esta celebração possa ser ocasião de reunião e celebração da vida em casal e da vida familiar, testemunhando como a felicidade pode ser o fundamento a partir do qual construir o futuro e o horizonte em direcção ao qual o queremos construir. 

Por Juan Ambrósio

29 de Dezembro de 2011

Falar a verdade sobre a educação


Finalmente, um ministro da educação diz a verdade! Nuno Crato considera que “é altura de se falar verdade e começar a ver que tudo isto tem um efeito brutal sobre o contribuinte”. Ao ouvirmos este comentário de um governante desconfiamos que até agora se ocultava propositadamente a verdade ou, em última análise, até se mentia… (E às tantas estou mesmo a dizer… “a verdade”.) 

Mas esta frase do ministro tem um tom economicista. Também não é de estranhar, claro, nos tempos que correm. E aqui é que reside o busílis da questão, que nos tem arrastado e agastado nas últimas (?) décadas. Um “bom” ministro da educação teria antes dito que “é altura de se falar verdade e começar a ver que tudo isto tem um efeito brutal sobre o cidadão e a sociedade”. Porque todos nós somos mais do que meros contribuintes… 

Pois é. Tem-nos faltado “educação”. Temos sido “mal educados”. 

O problema educacional português não reside – de forma alguma! – em desdobrarmos ou não Educação Visual e Tecnológica, em retirarmos (ou substituirmos) mais uma ou outra disciplina, em termos mais ou menos computadores na sala de aula, em requalificarmos mais ou menos escolas. Se assim fosse, teríamos melhor educação (ou seja melhores resultados académicos comparativamente com outros países e, sobretudo, mais humanidade, mais princípios, na sociedade) desde que tivemos computadores, quadros interativos, novas áreas curriculares de formação cívica, estudo acompanhado, área de projeto, muito dinheiro para projetos e parcerias, aulas com dois professores e escolas estatais luxuosas em muitos lados. 

O problema educacional português é “estrutural”, isto é, enferma de males que residem na nossa forma de ser e estar, cimentados ao longo de séculos. Além de sermos mal educados – porque nunca se investiu seriamente na educação – somos pouco obedientes. Não têm as nossas referências cristãs, ao longo dos séculos, feito apelo mais ou menos constante à cultura da austeridade, da poupança, do trabalho, da humildade, da família, da ética profissional, do serviço ao próximo, da humanidade das relações, da espiritualidade? E o que temos feito, designadamente na escola? As políticas de educação (e os agentes educativos) têm criado a cultura do facilitismo, da permi-ssividade, do imediatismo, da superficialidade, para os alunos, e do esbanjamento de recursos, do mercenarismo, do laicismo para a administração escolar. Esta mistura foi, como (não) se esperava, “explosiva”. E batemos “no fundo”. No fundo, temos de mudar radicalmente de paradigma, custe o que custar. Temos não só de poupar papel e energia e professores e disciplinas, como avisa Nuno Crato, mas sobretudo, mudar a nossa forma de sentirmos e lermos a vida. A vida não se esgota na curta passagem terrena. Ela continua e será potenciada quando alguns (ainda) pensam que “tudo acabou”. Como tal, não temos de queimar etapas para a digerir rapidamente, como se ela desaparecesse num ápice. 

Pelo contrário, temos de a saborear, dar valor aos pequenos gestos, aos acontecimentos simples. Temos de ir à essência das coisas. Como a vida é “eterna” temos (muito) tempo para a viver; nesta perspetiva, podemos estar mais calmos, olharmos com mais atenção o que nos rodeia, cuidarmos mais da natureza, atendermos mais às pessoas que nos são próximas. Não, não podemos continuar a esgotar o prazer no sensualismo desregulado, idolatrado pelo sexo, pela moda, pelo luxo, pelo dinheiro, pelo poder, pela ganância, pela inveja. Não, não podemos continuar a desperdiçar recursos porque além de eles serem cada vez mais escassos, geram injustiças. Temos de “tirar partido” do imenso recurso que nós somos, como “pessoas”, seres criados para a “relação”, para o amor. 

Temos que fruir a vida de outra forma. E enquanto não assentarmos neste paradigma desenhado no Evangelho, não nos safamos. Enquanto não descobrirmos a divindade que existe dentro de nós e nos impele ao amor, não saímos da crise, nem com carradas de apoios do FMI ou perdões da nossa “dívida soberana”. 

Educar é “tirar de dentro”, “extrair”. É ajudar a criança, o jovem, o adulto a aproveitar e saber gerir da melhor forma os recursos, os talentos que encerra. Incumbe à família, incumbe à escola, incumbe à sociedade criar condições para que todas as dimensões da pessoa se desenvolvam. Todas. Também a da ética, também a da espiritualidade/ religiosidade. E são estas que estão a fazer muita falta nos tempos que correm… 

Oxalá o senhor ministro tenha tempo para pensar e saiba valorizar a “verdade” na educação, no conselho de ministros e na sociedade. E não se esqueça da “espiritualidade” da educação… 

Por Jorge Cotovio


27 de Dezembro de 2011

Simplesmente aterrador!


Há umas semanas atrás um artigo escrito num diário de grande expansão nacional, a cujo autor eu peço vénia, com todo o respeito, para tomar aquele corajoso texto como pano de fundo, para, agora, sem falsos moralismos, reflectir, para reflectirmos todos, sobre ele, tamanha é a sua actualidade. 

Sobre a temática do escrito sucumbimos como a avestruz no deserto, escondemos a cabeça, veremos oportunamente. 

É que as nossas ainda meninas, de 12-13 anos, e poucos mais, já se metamorfosearam em mulheres, à força. 

Invocando o gosto em dormir com uma amiga, enganando os pais, correm pela noite alta para locais de diversão, com bilhetes de idade, falsificados quantas, envergando trajes escandalosos, que à socapa metem na mala de mão e mudam a correr naqueles locais. 

Depois, altas horas da noite, é vê-las embebidas no consumo excessivo de álcool, na inconsciência da voragem cedendo, quantas vezes, por incapacidade, à prática sexual, num contexto criminoso, caindo numa linguagem envergonhante da comparação de corpos, no uso de medicação facilitando um relacionamento sexual à margem da utilização normal da sua genitalidade e no bolsar do sabor do líquido da vida 

E note-se que não é só a rapariguinha de pai e mãe que saem de casa a altas horas da madrugada para lhes facultarem - até quando não sei - o pão, num esforço cruel, desumano e in-compreendido mecanismo de trabalho. Não. São também as meninas de farda e colégio, de quem tudo se espera menos linguagem livre e sexo desde tenríssima idade. 

As consequências desta vida louca são demasiado pesadas para as ignorarmos: sentimentos de culpa, depressão, mergulho no álcool, na droga, mau aproveitamento escolar, baixa de auto-estima, conflitualidade familiar, aborto, gravidez indesejada, suicídio, etc, isto se a pílula do dia seguinte que se vende, como tremoços, em sítio sabido, falhar ou não houver dinheiro surripiado aos pais ou encarregados de educação. 

Eu não creio que os pais, que todos nós, aplaudamos este fadário, esta triste sorte dos nossos jovens, já vítimas de uma sociedade injusta, que nada lhes dá de bom; eu recuso-me a admitir que nós pais sejamos indiferentes à perda da pureza, da inocência das nossas meninas-crianças, em idade de brincarem com bonecas, arrastadas, inconscientemente, para um mundo que nunca foi o seu e de que tantos tiram proveito a coberto da ruína alheia. 

Não posso acreditar que aos pais seja indiferente o uso do corpo dessas pequenas futuras mulheres, que quando chegarem à altura de o serem consciente e livremente, já o tenham sido há anos, e que quando o querem ser se enganam a elas mesmas e a outros comprometendo a sua felicidade e alegria de viver. 

Eu não posso acreditar que os pais se enrodilhem na voragem dos tempos, aceitando as consequências desde que não surta gravidez ou doença sexualmente transmissível, pesada e potencialmente letal. 

Eu bem gostaria de, no terreno, ver actuar um controle das autoridades policiais, no aspecto de fiscalização de idades de entrada; de consumo de álcool e de detecção de estupefacientes, em nome da defesa da saúde física e psíquica dos seus cidadãos, particularmente dos mais incautos e irreflectidos, por serem jovens. 

Mas objectar-se-á que desmandos sempre houve e haverá. Decerto que sim. Mas não é essa a questão. 

A questão é que no passado esses desvios relançavam a excepção. Agora é a norma; na turma, no café, na praia, no cinema, onde quer que seja, achincalha-se quem resiste, faz-se concurso e aposta-se no ganho de ser arrojado em tudo, menos num uso esclarecido, consciente e responsável do corpo. Isto aos 12, 13, 14, 15 anos… 

Interrogo-me sobre o que fazem em defesa destas jovens-crianças as autoridades a quem se confia essa específica missão. Não as vi, ainda, contrariar o artigo, cujo conteúdo a todos envergonha. 

Virão talvez dizer que, por entre meia dúzia de palavras bonitas, com câmaras apontadas, uma voz celestial, um rosto angelical de circunstância, depois do cansaço de nada ou pouco fazerem, entre um café no intervalo da meia manhã, a que se segue um intervalo a meio da tarde, que é bom depois seguir para casa, sexta já aí vem, e é muito provável que segunda nada se deva fazer…, que estão atentas a essa realidade, a envidar esforços e que já comunicaram ao Excelentíssimo Magistrado do M.º P.º para actuar. 

Estou em crer que, em certas situações, ainda haja pais e educadores que não denunciem o drama que lhes vai trespassar o coração para evitar o enxovalho público, preferindo um silêncio envergonhado à exposição dos muitos abutres que voam por aí, mas manter acto sexual de relevo com essas crianças é acto sexual de relevo punível com prisão que pode atingir e ultrapassar 10 anos. 

Os casos que chegam aos tribunais são, na essência, de famílias desagregadas - quase todas elas estão desagregadas, diga-se de passagem - que nada já têm a perder, indiferentes à mediatiza-ção da sua desgraça e miséria que é tendencialmente global, pobres e fracas, das cinturas que já foram industriais, das barracas, dos bairros periféricos e racicamente heterógenos, mas jamais esquecemos que as meninas dos bairros todos alinhados de cimento, incorrem em idênticos desmandos e também elas são vítimas ou se deixam vitimizar pelos vizinhos do lado, só que paira sobre elas um manto diáfano, uma cortina com ou sem qualquer vergonha, mas em que o relato do caso começa e morre dentro de quatro paredes. Os pais, em primeiro lugar, a família, a escola, as autoridades que mergulham na realidade, não muito já os senhores e as senhoras daqueles propósitos acima, bem podiam fazer dos nossos jovens gente mais feliz e digna de respeito. Isto se qualquer dia se não procurarem outras terras, outras paragens, onde valha a pena viver. 

Aqui não. 

Foi mesmo aterrador o que li, podem crer. 

Por Armindo Monteiro

24 de Dezembro de 2011

"O Mundo veste-se de Luz!..."

Veste-se de luz para celebrar um acontecimento crucial da História da Humanidade, ao qual nenhum povo ou civilização ficou indiferente ao longo dos últimos vinte séculos. Porque o Natal de Jesus, em 25 de Dezembro, é a resposta de Deus para os sonhos e as aspirações do coração do homem, a grande festa da família cristã que realiza e celebra aqui e agora, o encontro do Divino com o Humano. 

No Natal a eternidade e a humanidade abraçaram-se…O Deus – Menino veio ao nosso encontro tornando-se filho, um de nos, na gruta de Belém. Por Ele somos convidados a ir ao encontro de Deus e dos irmãos mais pequeninos e feridos do nosso tempo que precisam do nosso acolhimento, amor e ajuda. 

Na pobreza do Presépio de Belém recebemos o convite para o desprendimento do supérfluo e o compromisso com os mais necessitados. Por isso mesmo, o Natal de Jesus é ensinamento e mais uma ordem…É na pessoa desses “pequeninos”, que também hoje Jesus espera e quer ser reconhecido, acolhido, hospedado e amado. Sem dúvida, celebrar o Natal de Jesus não consiste apenas em recordarmos que Jesus nasceu na história humana, mas que Ele ontem, hoje e sempre quer e precisa nascer no nosso coração, nas nossas famílias, comunidades e no mundo. 

Desde sempre nos encantou ver as ruas, lojas, casas e as igrejas das nossas cidades com enfeites e luzes! O Presépio nas famílias e ruas das cidades fala-nos do cumprimento da promessa de salvação feita por Deus, enviando-nos o Messias prometido, esperado e anunciado através dos profetas. 

É o presépio que nos indica que o homenageado principal da festa é e deve ser sempre Jesus. Faz-nos bem reconhecer e sentir que apesar das pressões do consumismo das últimas décadas que nos envolvem no tempo natalício, somos despertados para a esperança de um mundo melhor… 

E o Natal de Jesus é um sinal permanente que nos fala do amor de Deus mas ao mesmo tempo nos interpela com a pergunta: que lugar o Deus Menino da gruta de Belém ocupa hoje na minha vida? Infelizmente devemos reconhecer que, para alguns de nós, mesmo cristãos, Ele ainda não é a prioridade da festa natalícia! 

A Bíblia relata que Jesus no seu tempo veio ao mundo e que os seus não O reconheceram e, por isso, não O acolheram. 

Perguntemo-nos: hoje é diferente?! 

O que devemos fazer para que o verdadeiro Natal de Jesus, não se transforme apenas num tempo de consumo ou num banquete em família? 

Jesus nasceu na gruta de Belém e quer hoje nascer na gruta do nosso coração! Que lugar Lhe reservamos? Como o preparamos?! 

No nosso tempo em que abundam dificuldades e carências de todo o género, Jesus espera também ser reconhecido nos pobres, nos doentes e nas crianças feridas e abandonadas pelo mundo! Nunca o esqueçamos: “Tudo o que fizeres ou deixares de fazer a um dos meus irmãos mais pequeninos é a Mim que o fazes”… 

Estamos em vésperas do Natal. A celebração alegre do Nascimento de Cristo, em cada ano, não depende das condições sociais e individuais do momento. Quanto maior for a angústia, tanto mais cresce a expectativa de uma superação do mal-estar reinante, através da comemoração do Natal de Jesus. 

O Natal é um apelo dirigido a cada um, no sentido de viver e anunciar a mensagem do Presépio. Recordemos as lições esquecidas que advêm da Manjedoura: Há ali um ambiente religioso, com a presença do Menino – Deus, de seus Pais – Maria e José – as vozes dos Anjos, a homenagem dos Pastores, dos Magos… Vislumbra-se uma magnífica riqueza, através da pobreza do estábulo. A felicidade que tem o seu lugar ali no meio da carência de bens materiais: Reconhecemos até o início do itinerário da Redenção da Humanidade: da Gruta de Belém ao suplício do Gólgota, à vitória da Ressurreição…até ao Pentecostes! 

E Maria aí estava presente! 

Figura materna que está e continua, até aos nossos dias, na História da Igreja e da Humanidade e que assim permanecerá até ao fim dos tempos! 

Feliz Natal! 

Maria Helena H. Marques


23 de Dezembro de 2011

É Natal


Eis que chega mais uma quadra natalícia… 

Os preparativos para festejar um tão jubiloso e sublime evento, um tão festivo e significativo acontecimento divino, são bem patentes por todo o lado. Música natalícia, atroa os ares; luzes em profusão, gambiarras de variegadas cores, montras enfeitadas a primor, com azevinho e bolas multicolores, hiper e super-mercados, repletos de brinquedos e doces de toda a ordem, em apelativos expositores, enfim, uma panóplia de enfeites, atractivos e sedutores. 

Vistosos ornamentos dão colorido às ruas e animação às praças. Colocam-se árvores de Natal, em tudo quanto é sítio. As próprias árvores que bordejam as artérias citadinas, e espaços públicos, surgem pejadas de miríades de luzinhas bruxuleantes, irradiando luz e cor. Embora a crise económica seja um facto bem patente, em quase todos os agregados familiares. O certo é que a azáfama das compras ainda se faz sentir, embora com bastante menor intensidade mercantilista. Projectam-se deslocações às terras de origem, para salutares convívios e confraternizações familiars. Os periódicos preparam flamejantes e vistosas edições especiais. As pantalhas da TV, surgem repletas de símbolos natalícios. Tudo parece desejoso de levar uma lufada de amor, uma mensagem de paz e fraternidade, solidariedade, caridade e perdão ao nosso próximo. 

Mas qual será a razão para toda esta agitação, mesmo em tempo de recessão, de austeridade, de tamanha crise económica? 

Para os cristãos, é fácil de compreender. Festeja-se o nascimento do seu Deus, do Menino, acontecimento que teve lugar, há dois mil e onze anos, em Belém da Galileia, revelação divina de Deus entre os homens. 

Para aqueles que não comungam destas ideias, bem como para os agnósticos, esta época é dia de convívio e de fraternidade familiar. Porém, para os cristãos, estes festejos são significativos, pois celebram a encarnação do Verbo de Deus, em Maria, na linha messiânica de David, sendo saudado por rústicos pastores, por reis magos, vindos do Oriente, por anjos divinos e por cânticos celestiais. 

A candura enternecedora e singela do Presépio, que tem servido de inspiração a tantas obras de arte, temas musicais e literarura, encontra-se bem patente, tanto na humildade dos zagais, como na sumptuosidade e na nobreza dos magos, prostados perante a glória de Deus, deitado em fulvas palhas de um mísero estábulo. O Filho de Deus não teve direito a uma simples casa, nem sequer a uma cama, para nascer. Em seu lugar, apenas um tugúrio, um curral, encravado numa gruta, nos arredores de Belém. E, apesar desta humildade, e desta modesta natalícia, nesta dia nasceu uma luz aurifulgente, que irradiou esperança. “o povo que vivia nas trevas, viu uma grande luz”. Nesse preciso momento, os judeus, os pobres e desamparados, os doentes e marginalizados, os que tinham sede de justiça e perseguidos, julgaram que estava para breve a libertação, o fim da perseguição aos humildes, aos oprimidos e aos injustiçados. E isto porque tinha nascido o Messias, o Príncipe da Paz, o Redentor. 

Todavia, tudo foi ilusório. A opressão continuou com uma ferocidade inaudita. As guerras recrudesceram, tornando-se cada vez mais encarniçadas cruéis, fraticidas, ferozes, violentas, sanguinárias… 

Hoje, volvidos que são 2011 anos, sobre tão divino acontecimento, muito pouco mudou. As mentes transformaram-se, é certo, os hábitos alteraram-se, é verdade. Mas os ódios, as ambições, as malquerenças, essas continuam a proliferar e cada vez em mais elevado grau. O homem continua a ser lobo do homem, com a mesma ferocidade que existia no tempo do comediógrafo romano, Tito Mácio Plauto, que viveu 250 anos antes de Cristo e escreveu em “asinaria Homo, homini lupus”, isto é, o homem é lobo do homem. A soberba, a inveja, a intriga, a opressão continuam a imperar e a dividir o mundo, entre ricos e pobres, entre poderosos e humildes, entre opressores e oprimidos. 

Mas estamos em plena época natalícia. Vamos manter a leda esperança de um mundo novo e bem melhor, sem dissídios nem quezílias. Vamos continuar a desejar “BOAS FESTAS” e “FELIZ NATAL”. Vamos continuar a formular votos felizes de prosperidade, a distribuir presentes, a animar quem sofre e nos rodeia, com cânticos natalícios e loas ao Deus Menino, a assistir à tão enternecedora “Missa do Galo”, a armar o presépio, a sorrir para a candura do Menino Jesus, deitado na sua manjedoura. Vamos esforçarmo-nos para que haja uma melhoria social, com paz alicerçada numa justiça mais célere e justa. Vamos fazer votos para que no próximo ano, ainda tenhamos o subsídio de Natal. Vamos seguir o exemplo de Jesus e sua expressiva lição de humildade, que nos ensina a solidariedade social e a vivermos apenas preocupados com o “pão nosso de cada dia” e que todos possam ter acesso àquilo que baste para se viver feliz e com dignidade social. Que cada um de nós seja capaz de ser forte para limitarmos as nossas ambições terrenas, as nossas exigências supérfluas, a fim de que os outros, que nos rodeiam, tenham também os bens que consideramos indispensáveis. E tudo isto não só a nível individual, como também colectivo e comunitário, para que desapareçam, de vez, tantos contrastes salariais, tantos escândalos remuneratórios, tantas ostentações, em que uns são exageradamente ricos e outros miseravelmente indigentes, a viverem em repelentes tugúrios. 

Que a crise económica em que estamos mergulhados, não seja mais uma maneira de os ricos, abastados e poderosos poderem explorar os pobres, carenciados e desprotegidos da sorte e assim se tornarem mais ricos e opressores. Que a solidariedade e equidade social, não sejam palavras vãs, mas antes formas de promover o bem-estar das sociedades, aproximando os níveis salariais, a fim de que os ricos fiquem menos ricos e os pobres, pelo menos remediados, para poderem viver decentemente com a dignidade que deve ser inerente a todo o ser humano. 

Boas-Festas e Feliz Natal 

Por Fabião Baptista


Peça a Peça


Para nós, cristãos, Jesus já veio, vem e virá... 

A celebração do Natal, não é a espera, da primeira Vinda, mas sim o abrir do coração e da mente a "Essa Presença Divina" que vive, que está, e deseja erguer a "Sua Tenda" no nosso coração. Aí, sim, Ele quer habitar e oferecer-se-nos como dom do Pai e desvelador da nossa verdade, em Deus. Um coração acolhedor, liberto e transparente, será a "prenda" mais fabulosa a oferecer-Lhe" e em troca Ele dá-se-nos como riqueza. 

Na expectativa do grande dia, em família, e peça a peça, construa-se um estábulo digno para Jesus, mas que também faça espaço ao irmão, pois esse é o Presépio que mais agrada a Deus! 

Dia 1 - Estábulo - Em família, escolha-se o espaço onde construir o presépio. Nesse local ofereça-se o coração a Jesus, pedindo-Lhe para fazer nele a Sua Casa. 

Dia 2 - Telhado - Decida-se, em família, que cobertura colocar no Presépio. Comprometam-se a não desagradar a qualquer membro da família, criando condições, para que o Menino Jesus fique protegido. 

Dia 3 - Fendas - Ver como eliminar as fendas da construção e protejer os sentidos das tentações. Aqueça-se de calor humano o ambiente familiar para que o vento e o frio não esfriem as relações. 

Dia 4 - Teias de aranha - Limpem-se as várias peças do presépio. Ao longo deste dia, elogie-se um amigo, o marido, a esposa, os filhos, etc. É uma forma de limpar a teias de aranha do "presépio pessoal". 

Dia 5 - Vedação - Construa-se uma vedação à volta da manjedoura, mas também do coração. Mantenha-se, cada um vigilante para não ser ferido nem ferir. 

Dia 6 - Manjedoura - Em família, coloque-se a manjedoura no Presépio. Abstenham-se do conforto e de divertimentos excessivos. Arranjem o melhor e o mais quente espaço do coração, para o bem estar de Jesus. Falem-lhe de cada elemento da família. 

Dia 7 - Feno - Coloquem o feno no Presépio e comprometam-se a dominar os sentimentos do orgulho, da ira ou inveja. Digam uns aos outros que se querem bem. 

Dia 9 - Palha - Coloque-se a palha no Presépio e desafiem-se os elementos da família para uma caminhada, (ex um passeio juntos), superando o frio ou o calor, sem se queixarem. 

Dia 10 - Fraldas - Preparem-se para o Divino Menino, de mãos postas em oração, rezando juntos uma oração do Advento. 

Dia 11 - Combustível - Sorria aos seus pais, professores e autoridade; e assim aquecerá o seu coração. 

Dia 12 - Água - Coloque-se uma fonte no presépio, para que todos sintam uma ligação forte ao mesmo. 

Dia 13 - Provisões - Evitem-se palavras que não sejam verdadeiras. Prive-se, cada um, de algo que gosta, nas refeições. 

Dia 14 - Luz - Em família, coloque-se luz no presépio. Neste dia cuide-se, especialmente, do ambiente familiar. Alegre-se a casa com uma flor diferente. 

Dia 15 - Fogo - Aqueça, cada membro, o presépio do seu coração. Agradeça a Deus, em família, por ter assumido a natureza humana. Demonstre gratidão aos pais, aos filhos, ao marido, à esposa, a parentes e amigos. 

Dia 16 - Boi - Em Família, coloque o boi no presépio e juntos contemplem a construção inacabada...Convençam-se os amigos da importância do Natal, porque Jesus nascerá novamente no coração de cada pessoa. 

Dia 17 - Burro - Coloque-se, em família, o burro no presépio. Ofereçam, juntos, ao Divino Menino a força física, para que possa ser usada ao serviço dos outros. 

Dia 18 - Prendas - Em família, decidam o que oferecer ao Divino Menino, neste Natal e o que oferecer aos parente e amigos. 

Dia 19 - Cordeiros - Levem ao presépio alguns codeirinhos e comprometam-se a viver a mansidão e a humildade de coração. 

Dia 20 - Pastores - Em família, coloquem os pastores no presépio e elejam uma família ou uma pessoa pobre a quem ajudar neste Natal. 

Dia 21 - Chave - Coloquem a chave na porta do estábulo para manter afastados os ladrões... comprometam-se a pensar bem dos outros, mesmo daqueles que não são tão simpáticos. 

Dia 22 - Anjos - Convidem os anjos a adorar a Deus com toda a família. Cada um, obedeça, cuidadosamente, às inspirações do anjo da Guarda. 

Dia 23 - S. José - Em família, coloque-se S. José no Presépio e aprenda-se com Ele o silêncio, a paciência e a capacidade de suportar as recusas e desilusões. Peçam-lhe que a todos ensine o dom da confiança. 

Dia 24 - Virgem Maria - Levem juntos, a Virgem Maria e o Seu Filho Jesus ao Presépio. Convidem-nos a habitar no seio da vossa família. Encurtem as conversas e as chamadas telefónicas e passem algum tempo na companhia da Sagrada Família. 

Vieira Maria

21 de Dezembro de 2011

Números da Crise


Mais de 13 milhões de pessoas de uma região que abrange a Somália - o país mais afectado – a Etiópia e, com menos intensidade, o Djibuti e o Uganda, enfrentam a pior crise alimentar dos últimos 20 anos. 

Segundo as Nações Unidas, vai perdurar até, pelo menos, 2012. Calcula-se que cerca de 100 crianças morrem todos os dias na Somália vítimas da fome e da má nutrição, enquanto milhares de pessoas tentam diariamente alcançar os campos de refugiados superlotados, em Mogadíscio ou em países vizinhos, arriscando semanas de caminhada e a passagem por regiões controladas pelo grupo terrorista Al-Shabad, considerado próximo da Al-Qaeda. 

Os seus guerrilheiros têm dificultado o acesso da ajuda humanitária a milhões de pessoas necessitadas, alegando que o problema humanitário na região não passa de uma invenção e um complô das organizações humanitárias para melhor controlarem a região. 

As causas desta crise humanitária são unanimemente atribuídas às condições climáticas: a seca. 

Cerca de 75 por cento da população da região depende da agricultura. 

Quénia e Etiópia mostraram-se incapazes de antecipar medidas para minorar uma situação que já vinha sendo alertada, desde o ano passado, pelas organizações internacionais. 

Por seu lado, a prioridade do governo da Somália tem sido tentar sobreviver aos ataques dos grupos armados, numa guerra civil que se arrasta há cerca de 20 anos. 

Para além disso, estamos numa região com um crescimento populacional forte, agravando ainda mais a situação alimentar em tempo de crise. 

Como se isso não bastasse, a pequena agricultura, da qual depende a alimentação da maioria da população, tem vindo a ceder terreno para as grandes explorações agrícolas, muitas delas dedicadas a produtos destinados a mercados internacionais, como acontece com o caso dos biocom-bustíveis e das flores. 

A gravidade da situação levou a Organização das Nações Unidas a pedir aos países membros um reforço da ajuda humanitária necessária para combater a crise alimentar. 

As estimativas iniciais cifravam-se em 2,4 biliões de dólares, mas face ao agravamento da situação e à identificação de novas regiões afectadas pela seca, as Nações Unidas têm vindo a rever os números que se situam agora em cerca de 7,9 biliões. 

Falamos de um montante certamente elevado, quando sabemos que os Estados Unidos e a Europa, que se encontram entre os principais doadores da ajuda humanitária mundial, enfrentam uma crise económica e financeira grave. 

Mas, como nos recordava recentemente um editorialista do jornal Le Monde, as despesas do Pentágono serão, em 2012, de 600 biliões de dólares e o plano financeiro de ajuda à Grécia irá ultrapassar os 400 biliões. 

Por Orlando Fernandes

20 de Dezembro de 2011

Natal de hoje, Natal de sempre


Num livro de análise da sociedade consumista actual - A Felicidade Paradoxal - G. Lipovetsky aborda aquilo que considera a “ressurreição da festa”. A sociedade actual perdeu o sentido da história e dos grandes ideais colectivos, das crenças e dos rituais que os alimentavam em proveito do culto do indivíduo e do desfrute do imediato. 

“Na sociedade do hiperconsumo triunfa a festa sem passado nem futuro, a hiperfesta auto-suficiente, centrada no presente, situada no grau zero do sentido, alimentada apenas pelas paixões da distracção e do consumo.” (p.217) 

Nos tempos recentes, assistimos ao lançamento e adesão massiva a festas alheias à nossa cultura, exploradas numa lógica de marketing e consumo. Halloween significa simplesmente “Véspera de todos os Santos”. A comemoração de Todos os Santos e os Finados têm entre nós profundo significado religioso ligado à doutrina católica do purgatório e da comunhão dos santos, ao sufrágio dos mortos. Comporta práticas sociais adaptadas à sociedade agrícola e seus ritmos que reforçam a sua coesão: Nos Santos, sobressai o aspecto expansivo e lúdico do convívio nos magustos; nos Finados, a dimensão solidária na ajuda aos mais pobres pela esmola, componente tradicional do sufrágio dos defuntos. 

Divulgada e fomentada pelas instâncias comerciais ligadas ao consumo, Halloween reúne uma súmula das práticas da festa pós-moderna. Caracterizam-na o vazio de sentido, a solicitação à participação anónima, a identificação por disfarces, adereços e objectos, a participação em espectáculos e divertimentos em lugares de consumo massificado. A festa esgota-se no divertimento frívolo, na fuga ao real, nos encontros descomprometidos e fugazes. 

O Natal, festa tradicional própria do mundo cristão também sofreu a metamorfose da festa moderna. Não é hoje o Natal a celebração universal do consumo que substituiu a relação pessoal e familiar pela anónima troca de coisas e a falta de proximidade afectiva por carradas de presentes para as crianças? 

Nesse processo o Natal perdeu sentido, enfraquecendo a mensagem religiosa cristã que está na sua origem e fez dela um marco universal das práticas humanitárias de fraternidade e de paz. A sociedade laica faz questão em despojá-la desse sentido em favor de ideais abstractos para a converter em acontecimento lúdico e integrá-la na sociedade do espectáculo e na euforia das compras. A figura discreta do Santo Bispo Nicolau, epígono do serviço do próximo e ajuda aos pobres transformou-se no Pai Natal bonacheirão mensageiro e arauto da felicidade e abundância consumista, convocando todos para a orgia das compras. 

A Festa tem uma origem religiosa. É componente essencial da cultura, da atribuição de sentido à existência, da identidade pessoal e coesão social, da justificação das práticas e regras de acção dum povo. A festa comporta uma visão do mundo e do lugar do indivíduo na sociedade, um remontar às origens, um perspectivar do futuro. Situa-se na esfera do sagrado, num tempo transformado que ultrapassa a sucessão do antes e depois e enquadra simbolicamente a existência 

O Natal é uma festa cristã. Preserva as componentes cósmicas, antropológicas e simbólicas da experiência religiosa, com um sentido próprio, dentro da perspectiva bíblica. A festa é celebração do presente, memorial do passado e projecção no futuro. 

A festa é a celebração actual duma comunidade que recorda uma irrupção de Deus na história, uma intervenção salvífica de Deus, situada num lugar e num tempo passado. A celebração festiva actualiza a eficácia dessa acção passada no presente da vida e experiência daqueles que nela participam, actuando como força transformadora da sua vida. 

A festa tem uma dimensão moral. Torna-se compromisso, imitação dos mistérios celebrados, concretização no quotidiano do que se “revive” na celebração: “Exorto-vos…a que ofereçais vossos corpos como hóstia viva, santa e agradável a Deus: este é o vosso culto espiritual” (Rom 12, 1). 

A festa é antecipação do futuro absoluto. Está ligada à realização completa do sentido anunciado pela celebração actual. “No NT, à luz do mistério de Cristo, a festa está entre o “já” da salvação concedida e o “ainda não” da salvação definitiva” (M.Augé, O Ano Litúrgico, p. 27). 

A festa implica a dimensão comunitária da participação, da vida em comum, da criação de laços de comunhão com Deus e com os outros. É mais do que estar juntos, de ser cúmplices, é estar unidos e solicitados por algo que nos transcende. Por tudo isto a festa é uma experiência da alegria, de alegria profunda, de coincidência consigo próprio, de comunhão com os outros, de confiança, de esperança que supera as dificuldades do presente. 

A festa do Natal recorda o nascimento de Jesus, acontecimento histórico. Antecipa a sua vinda definitiva para além do tempo. Celebra o mistério da Incarnação do Verbo de Deus. Deus assume a nossa humanidade e a nossa história. “O Filho de Deus fez-se homem para que nós nos tornássemos Deus” – lembra S. Agostinho. O mistério de Natal toca-nos. Somos Filhos de Deus, participamos da sua vida. Somos chamados a viver à sua maneira. Constituímos uma família todos os que n’Ele acreditamos. Somos irmãos. A fraternidade resulta da nossa comum filiação divina. A pobreza ou a humildade não são apenas virtudes morais são condição existencial e concretização dum amor que aproxima e torna semelhantes. 

A festa do Natal cristão é o contrário do Natal consumista e individualista. A tradição cercou-a de referências familiares, de gestos de partilha, de manifestações de fraternidade e simplicidade. Francisco de Assis fez do presépio um ícone da pobreza e da humildade do nascimento de Jesus, da sua identificação com toda a humanidade, uma representação simples dum universo que reconcilia o homem com a natureza. 

O tempo de austeridade que vivemos pressiona-nos a questionar o vazio do Natal do consumo, da felicidade individualista e passageira e a voltar aos valores do Natal Cristão que apontam para o reconhecimento da dignidade de cada homem/mulher, para o valor da vida, para a solidariedade e partilha, para a responsabilidade comunitária, para a esperança, para a alegria decorrente da consciência do valor do homem perante Deus e da missão que lhe é atribuída no mundo. Se esvaziamos o Natal do encontro com Deus e da comunhão com os outros, somos nós que ficamos vazios. 

Por Octávio Morgadinho

20 de Novembro de 2011

Dar esperança em tempo de crise

Vivemos tempos difíceis. A família, como célula base da sociedade, é imediatamente afetada por esta crise generalizada e que promete perdurar. Neste contexto, exige-se um novo paradigma, uma nova forma de estar e de nos relacionarmos. As pressões externas para a eficiência e produtividade, se positivas, originam por outro lado desemprego, trabalho precário, mudanças abruptas nos comportamentos laborais, piores remunerações e menos apoios sociais. Como consequência, vamos ter mais famílias em grande dificuldade, mais depressões, mais conflitos conjugais/ intergeracionais, mais divórcios, mais desespero. Vamos ter mais crianças tristes, mais jovens sem sentido. Para piorar as coisas, muitos dos casais que trabalham na pastoral da família (e noutras pastorais) também serão, certamente, atingidos por esta onda assoladora.
No meio deste ambiente desfavorável, urge ser profeta da esperança. A Boa-Nova do Evangelho dirige-se especialmente para os corações perpassados por espinhos. Uma vida de fé ajudará os casais, as famílias, a superarem as dificuldades. A oração, a direcção espiritual, o convívio com outros casais, o auxílio a pessoas ainda com maiores dificuldades, ajudam a suavizar a dor e a ver com mais ´optimismo as coisas e a vida.
As nossas comunidades, as nossas pastorais têm de contar com este cenário profundamente desconcertante, até porque abrange (também) pessoas que nunca seria suposto passarem mal. Em consequência, muitas das situações serão sofridas sem sinais exteriores.
No contexto conjugal, quando elas se extremam já não se vai a tempo de impedir a ruptura. Há, pois, que estar atentos, sobretudo aos casais mais novos. Há que acudir a situações dramáticas com a ação sócio caritativa. Há que transmitir palavras e atitudes de esperança, ajudar a sair de becos sem (aparente) saída. Se aos leigos é pedida maior atenção às situações difíceis, aos sacerdotes pede-se especialmente maior disponibilidade para a direcção espiritual, ouvindo e aconselhando (e perdoando), em nome de Deus. É uma tarefa sublime e insubstituível, que lhes compete sobremaneira, e que devem colocar em primeiríssimo lugar nas suas rotinas.
Um mundo esgotado pelo sensualismo, pelo consumismo, pelo materialismo, pelo indiferentismo perante a religião, só se recuperará com gigantescas doses de esperança, radicadas na Boa Notícia do Evangelho, nas Bem-aventuranças (ou seja, na Fé, na fraternidade, no trabalho, na sobriedade, na razoabilidade).
E estas doses têm de ser administradas pelas nossas mãos…
No dealbar de mais um ano pastoral, este particularmente marcadíssimo pela crise societária - que as nossas palavras e, sobretudo, as nossas atitudes possam ser galvanizadoras de pastorais familiares (e outras pastorais) vividas com muita esperança nas nossas comunidades.

Por Jorge Cotovio

Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More